segunda-feira, 14 de junho de 2010

Em Clima de Brasil


Texto de Álvaro Freire Samways.


É Copa do Mundo!!!!!!! Sim, depois de toda a contagem regressiva promovida pelos canais de televisão, rádio, internet e o escambau (coincidentemente os que detêm seu poder de transmissão), ela esta ai mais uma vez, em sua 19ª edição. Nosso (não leve esta expressão a sério, a menos claro, que você seja filho de algum político, ou milionário) país estará lá de novo, pra seguir com o tabu de nunca ter ficado de fora deste torneio.


Ao contrário do que você possa estar pensando, eu não vim aqui pra protestar contra o poder alienante exercido pelo futebol e os meios de mídia que o veiculam, chamá-lo de “ópio do povo”, ou demais frases prontas estigmatizantes, todas de cunho “marxistaanarquistaantisistemacapitalistacocacolaemcdonald’s”, que só vêm a ser modos de permanecer estático e fingir que se está indignado. Pelo contrário, gosto de assistir um bom futebol, embora eu odeie essa máfia que gira em torno da seleção brasileira (que por sinal hoje em dia é mais fraca que sopa de albergue, sendo que ela não é nem sombra do que foi no passado), e prefira muito mais o futebol raçudo de nossos hermanos (hostilizados pela mídia por pura falta de argumento da mesma) bem como sua seleção, do que o bundamolismo dos inúmeros cai-cais malas que atingem o status de craque em nossa (lembra-se de como deve ler este “nossa” né?!) pátria atualmente (que saudades das épocas de Rivelino, Zico, Romário, Edmundo).


Gostar de futebol não deixa ninguém burro como pregam os tais “revolucionários” de cartilha socialista que citei acima. Maior prova disso é que alguns de nossos maiores escritores/pensadores eram, ou são, torcedores vorazes de algum time, chegando a dedicar obras para os mesmos, vide casos como os de Luiz Fernando Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, Washington Olivetto, Nelson Rodrigues, Aldir Blanc, Nelson Motta, e tantos outros que sempre se mostraram admiradores deste esporte.


O que eu acho que nenhum deles apoiaria, assim como eu, são as inúmeras barbáries e sandices protagonizadas em nome do futebol. Uma das mais óbvias e ridículas é o vírus de nacionalismo ufanista e xenófobo que infecta toda a nação a cada véspera de Copa. Do nada, pessoas que não estão nem ai para a “pátria amada”, para os problemas que ela porta, para a imagem de neandertais cultuadores de bunda que os brasileiros tem ao redor do mundo, e que sequer sabem duas estrofes do hino nacional, tornam-se patriotas doentes, e o pior, patriotas da forma mais pueril possível. Acham que demonstrar amor ao seu país é torcer para a seleção “amarelinha”, faltar ao trabalho para ver seus jogos, pintar a casa, os muros, a calçada e até mesmo as próprias fuças de verde e amarelo, depreciar outros povos (principalmente os argentinos) em propagandas dos mais variados tipos de produtos, de chinelo a cerveja, e sair em carreata caso o país ganhe uma sexta estrela no uniforme. Se isso é ser patriota, então eu definitivamente sou um completo anti-Brasil.


Por que eu de minha parte, diferentemente deles, acho uma real falta de patriotismo ver gente indo aos estádios de futebol, pagando para isso com mais de 35% do seu mísero salário mínimo (se pelo menos tivessem uma educação de qualidade na escola, perceberiam o quão ignorante é fazer isso), se arriscando com a falta de segurança, culpa principalmente da parte de alguns ogros que preferem queimar calorias brigando contra a torcida adversária do que torcendo pelo time ao qual pagaram 50,00 R$ de ingresso para assistir, se dizendo por isso “torcedores fanáticos”. Se não assistem nem ao jogo pelo qual pagaram, qual é a chance real de estarem cientes do passado político do candidato pelo qual optaram como voto? Chance ainda menor de saberem o que aconteceu aos envolvidos no “Mensalão”, no “Valérioduto”, e vários outros esquemas corruptos que tinham como patrocínio o dinheiro pago por eles mesmos no imposto incluso naquele ingresso para “assistir o time do coração”.


Acho falta de patriotismo ver que existe gente nesse país que se diz “amante do Brasil”, que chora pela derrota e eliminação do país na Copa do Mundo (quando os próprios jogadores são os primeiros a sair rindo de campo), se indigna com isso, mas não está nem ai com toda a impunidade capital de crimes hediondos que até mesmo Madre Teresa de Calcutá relutaria em perdoar, tudo isso baseado num código de leis paleozóico que beneficia os mais abastados, código este que em qualquer outro lugar do mundo que se diz civilizado já teria sido revisto pela sua ineficácia (se bem que ele é eficaz no que diz respeito a “impunidade para os que o criaram”).

Acho falta de patriotismo perceber que os maiores craques da bola (pra não citar outros esportes, e por que não, outras áreas) da história de nosso país tiveram de vencer a miséria, o descaso, a violência, a carência de boa educação e a falta de oportunidades. Ver que mesmo com tantos indicadores positivos saídos da pobreza, nenhum engravatado procura melhorar a situação, dando assim mais chances para aqueles que quiserem seguir com dignidade em sua vida. Ver que a idéia ultrapassada de que “na favela só tem bandido” ainda é o que figura na cabeça de muita gente, principalmente dos próprios bandidos, que na verdade, ocupam escritórios na Explanada dos Ministérios.


Acho falta de patriotismo morar num país onde sou chamado de “anti-brasileiro” por achar que o futebol argentino é melhor que o nosso, por achar que Maradona foi melhor que Pelé, mas constatar que o cara que rouba o dinheiro da merenda das nossas crianças é tratado como um herói nacional, ganhando condecorações e se eternizando no poder, e pior ainda, ver que estes caras que me acusam de falta de amor ao país (vestidos com sua camiseta do Kaká) se achando os “sangue verde e amarelo”, são os primeiros que estão vendendo seus votos exatamente pro tipo de cara corrupto que citei acima. Ver que no Brasil só se lembra quem são os brasileiros na hora de se arrecadar votos, e que mesmo estes, ao invés de repudiar tal ato, são idiotas o suficiente para se vender por uma cesta básica.


Esse problema de nacionalismo de plástico só será superado no dia em que o brasileiro perceber que seu país não é uma Seleção, e sim uma república federativa presidencialista, localizada na América do Sul, de 8.514.876.599 km², formada pela união de 26 estados federados e por um distrito federal, dividida em 5.566 municípios, onde abundam problemas sociais, econômicos e intelectuais de toda a ordem. País que carece o mais rápido possível de gente forte, sobretudo de espírito, decidida a não se levar pelos “contos e fábulas” das promessas de horário eleitoral, nem pelas modas e pressões impostas pela mídia de massas. Gente que leia, que critique, que pense, que reflita sobre o que acontece ao seu redor.


Não precisamos de pessoas intelectualóides, que por terem um título de doutor em alguma coisa, fazem malabarismos shakeaspearianos na hora de pedir um simples café no boteco. Precisamos sim do mínimo de córtex cerebral para não sermos enganados pelo “resultado positivo da seleção do Dunga nos amistosos”, ou pela “conquista do Fluminense na Copa do Brasil”. Saber que futebol é bom sim, mas que isso não vai colocar comida em nossos pratos, nem nos dar emprego (mesmo no caso de quem está tentando ser jogador o futebol ainda se mostra bem frustrante), quão pouco lhes garantir um futuro melhor. E principalmente: saber quer ser patriota não é andar com bandeirinha da seleção no carro, nem criticar o futebol argentino, mas sim procurar estar atento ao que acontece no contexto do seu país, para com isso poder melhorá-lo a cada dia. Antes de ser um torcedor brasileiro, ser sim, um cidadão brasileiro.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

CDs (Clássicos) QUEENS OF THE STONE AGE





Queens Of The Stone Age

Songs For The Deaf
(Interscope)
2002

Texto por Álvaro Sanways

Não, os anos 2000 não ficarão marcados só pela atrocidade musical cometida pelas bandas ditas “emocore”. A maior prova disto está neste disco, Songs for The Deaf,de 2002, que é um dos trabalhos mais espetaculares concebidos por um grupo de rock em todos os tempos.

Dois anos após o intrigante álbum “Rated R” de 2000, o Queens Of The Stone Age reuniu-se mais uma vez em estúdio para a gravação de um novo registro sonoro inédito, desta vez contando com uma formação que daria inveja a qualquer supergrupo: nas guitarras e nos lead vocals, o entronizado (por seus próprios méritos) rei do stoner-rock, Josh Homme (que ficou famoso com a lendária banda Kyuss nos anos 90). Como segundo vocalista o respeitadíssimo Mark Lanegan (outro oriundo de uma das grandes bandas de Seatle dos anos 90, os Screaming Trees). No baixo e em alguns vocais de determinadas musicas o carismático Nick Oliveri (outro membro fundador do Kyuss), e aquela que era a presença mais ilustre deste dream team, o atual vocalista dos Foo Fighters e ex batera do Nirvana, Dave Grohl, tocando (com uma energia e criatividade que beiram o insano) o instrumento que lhe trouxe fama mundial com o respectivo grupo. Esta já seria uma equipe de gigantes mesmo que não levássemos em conta a participação de Alain Yohannes, multi-instrumentista famoso pelo seu bom trabalho com as mais diversas bandas alternativas da desert area, que tocou todo tipo de instrumentos durante as gravações, dando apoio ao que esses quatro digníssimos cavalheiros viriam a desenvolver, nada menos que o melhor disco do catálogo da banda em todos os tempos.

Com esta formação calcada na nata de músicos de rock alternativo dos anos 90, o QOTSA elaborou uma das melhores gama de músicas que se pode escutar num mesmo álbum. Para começar injetando uma navalha direto no cérebro do incauto ouvinte, a musculosa abertura com “You Think I Ain’t Worth A Dollar, But I Feel Like A Millionaire”, que só pelo título já demonstra seu total despojo em relação a qualquer resquício de comercialidade. Seguida dela a perfeita “No One Knows”, maior hit do disco, com refrão grudento e ótimas guitarras. “First It Giveth” mostra um groove monumental de bateria, caindo como uma luva no resto dos instrumentos, e “Song For The Dead” trás uma incrível composição embasada em vários clímax, ora com pesados momentos na voz rouca característica de Mark Lanegan, ora com falsetes muito bem empregados por Homme , e com um Grohl tocando como se fosse um John Bonham com esteróides.

Após essa avalanche inicial de peso temos a soturna “Sky Is Falling”, que apesar dos momentos de pesados, tem mesmo como chamativo os momentos etéreos, trazidos a tona pelas vocalizações em falsete de Homme durante as partes instrumentais. Passado o devaneio celestial vem a pesadíssima (e curta) “Six Shooter”, que na voz agressiva de Nick Oliveri, leva apenas 1:20 para atravessar o cérebro do ouvinte como uma faca quente na manteiga. “Hangin Tree” é outra peso-pesado, que, composta por Alain Yohannes e cantada pela voz neandertalesca de Lanegan, poderia muito bem justificar o ingresso do músico de apoio para o cast principal da banda, de tão boa que a música é.

“Go With The Flow” é outra pérola, onde é possível (graças ao tom mais alto da canção) escutar um belo timbre vocal pouco usado por Homme na história de sua banda, o que por si só, já tornaria esta música uma audição obrigatória, sem levar em conta o bom trabalho de Grohl nas baquetas, colocando um clima de urgência quase agoniante à esta faixa. A seguinte, “Gonna Leave You”, apesar de não estar no mesmo patamar de todas as anteriores, mostra um apelo comercial legal sem se tornar descartável, com belas vocalizações de Homme, mais uma vez, e interessantes duetos vocais com Oliveri.

“Do It Again” pode ser caracterizada como um “blues stoner rock”, pois alia o peso característico das afinações baixas do rock criado pelo Kyuss nos anos 90 com levadas primorosas de Grohl ,em um shuffle anabolizado. Também pertencente a classe do “blues stoner rock”, a ótima “God Is On The Radio”, que além dos duetos vocais inspirados entre Lanegan e Homme, traz um ótimo solo de guitarra, com um timbre vintage que fará os mais saudosos corarem.

“Another Love Song” é outra canção que apesar de não estar no nível das demais não deixa de ser interessante, pois trás um Nick Oliveri cantando de forma calma, bem diferente dos gritos habituais do baixista/vocalista, além de uma letra legal e um ótimo trabalho de batera de Dave Grohl, alternando levadas limpas com climas tribais, climas estes que se fazem mais presentes no fechamento áureo do disco com a mastodônticamente pesada “Song For The Deaf”, uma música com tantos climas que faz o ouvinte chegar em êxtase ao seu final. Há ainda uma faixa bônus, chamada “Mosquito Song”, uma ótima música em clima acústico, que lembra muito a fase umplugged do grunge.

Além de todas as belas composições, o que também ajuda a definir Songs For The Deaf como um álbum de rock atemporal é a sua produção artística (a cargo do próprio Josh Homme e de Eric Vallentine), que conta com uma gravação totalmente em climas vintage, e a ótima sacada de contextualizar o disco todo como um capítulo vivido por alguém que está à procura de boas músicas pelas ondas de rádio (durante todo o disco, entre as faixas, é possível ouvir vinhetas, propagandas e trocas de sintonia, como se realmente as músicas estivessem sendo encontradas durante uma ouvidela pelo rádio do carro, numa viagem por uma highway no deserto da Califórnia).

Songs For The Deaf é realmente um daqueles discos que valem a pena ser ouvidos na íntegra, que marcam toda uma geração que (com sorte) foi contemporânea a ele, e que certamente se manterá impassível a ação do tempo, com suas características artísticas intactas, sendo para sempre uma referência quando o assunto for música, e especialmente, rock bem feito. Só temos a agradecer ao Queens Of The Stone Age, por este impagável presente.

terça-feira, 8 de junho de 2010

E Assim Caminha a Humanidade



Texto por Jean de Oliveira

As baladas se tornaram um marco obrigatório imposto pela sociedade para relacionar e entreter a cultura jovem. Ficou estipulado que se você é novo e busca diversão, somente irá encontrar em uma boa festa.
E parece que ela se tornou uma coqueluche instantânea entre os jovens, estes que se sentem imensamente vazios (e isso inclui intelectualmente), e por isso sempre precisam de uma boa festa para se sentir preenchidos.
É fascinante como em um lugar onde não se pode desenvolver uma conversa descente, graças a musica alta (e extremamente ruim), com pessoas se esfregando devido ao resultado da constante: superlotação + ambiente pequeno, homens babando em cima de mulheres (igualzinho no Animal Planet), falta de educação, dentre outros fatores mais, sobrando como única alternativa o consumo de bebidas alcoólicas para tentar aventurar-se em um romance que provavelmente durará apenas uma noite (afinal quem vai à balada para encontrar o grande amor da sua vida?), possam se ajuntar as mais diversificadas variantes de pessoas com os mesmos (decadentes) propósitos de vida.
A grande maioria dos seres que habitam esses lugares são de extrema promiscuidade, pois se analisar a personificação do baladeiro, independente de ser homem ou mulher, concluir-se-á que essas pessoas se preocupam somente com sua imagem narcisista, com seu desejo permanente de se sentir engrandecido, à medida que adquire e possui coisas - no caso, "conquistar" alguém na balada; ou a necessidade constante de admiração alheia.
Agora passamos para os estereótipos de grupos figurantes deste antro.
Iniciamos com o grupo dos homens. Este que chegam à frente da selva, digo balada, com um carro superlotado de seres do mesmo sexo, se preparam com os tão bem falados "esquentas". São liderados por um típico otário com uma garrafa de Sprite misturada com algum destilado na mão, bebendo para mostrar que ele é o bêbado da turma. Junto com outros infelizes asnos, berrando e rindo alto para chamar atenção, e mais alguns bebendo cerveja para completar a trupe dos imbecis.
Aí eles fazem uma rodinha e se fixam em um local, sempre com a garrafinha de long neck na mão, soltando uns passos desajeitados, fingindo que curtem a música (na real nem sabem o que está tocando) quando na verdade estão de olho em algum sinal feminino de alguém que se interesse por eles. Coisa essa que não acontece.
A noite vai passando e o desespero para "pegar" alguém aumenta, é ai que vem os tiros para cima das muito feias mesmo.
Começam então com os primeiros ataques, com aqueles olhares sedutores que eles viram o cara da novela fazer, usando o tradicional “oi tudo bem”, “qual seu nome”, "você é muito linda" e o cafonérrimo “oi, você vem sempre aqui?”.
Enfim, o acervo completo de cantadas de um genuíno babaca, digo baladeiro padrão, para falar pra toda mulher, que por sua vez, os rejeita de qualquer jeito.
Uma coisa que me deixa indignado é que eles nunca percebem que só pelo fato de freqüentar uma balada, já saem no prejuízo (tanto financeiro quanto emocional). Pois se for descontar a grana da entrada, consumação e se no final se der bem, ainda vai ter que gastar com motel, caso contrário, aquelas doses de vodka que pagou R$ 10,00 cada para ficar bêbado e se aventurar com alguma mulher (que o rejeitou, obviamente), irão provocar uma enorme ressaca no dia seguinte, fazendo-o vomitar e suar feito um porco a espera do abate, para que quando finalmente se sinta melhor, já chegou outra noite de festa e os estúpidos retornam, fazendo esse mesmo ciclo diversas vezes. No caso de falta de grana, o romântico banco de trás do carro ou a boa e velha moita resolvem o problema.
Infelizmente isso ocorre seguidamente, sendo esse o retrato mais fiel dos homens patéticos das baladas que já pude ver. Posso até lhe garantir que já presenciei e sou testemunha ocular disto.

Em seguida vem o grupo das garotinhas que acabaram de completar 15 anos e acham que são adultas. São aquelas que passam o dia inteiro lendo Crepúsculo e assistindo Malhação ID. Vão para as festas tentando imitar as mulheres que elas assistem nesses seriados chatíssimos que passam na TV a cabo. Essas não duram muito, pois a mamãe não deixa ficarem até tarde. Porém o tempo em que passam lá é mais que necessário para provar o quão acéfalas são, rindo e falando alto, soltando gritinhos temerosos, tudo para chamar a atenção, para mostrar o quão divertidas e “descoladas” são. Até que voltam pra casa (no carro da mãe que tem que ir buscá-las) para continuar a ler Crepúsculo, ou brincar de que é a namoradinha de algum garoto do colírio da Capricho, com as amiguinhas que vão dormir juntas.

E por último, mas não menos importante, vem o grupo das mulheres, seres cujo único princípio é para achar alguém que massageie seu ego e alimente a sua imagem, inundando-as de elogios (que serão por elas ignorados).
Ficam na fila cheias de si, com aquela cara de mau humor, todas produzidas (afinal, em uma balada, quem se interessa por beleza interior?), sabendo que todos os homens do lugar querem comê-las, e que elas vão esnobar, pois são as superiores do local.
Quando algum homem chega nelas, elas adoram dizer "só vim pra dançar". O que me faz pensar que pra dançar tem mesmo que se produzir, escolher roupa, colocar um salto, fazer chapinha, ficar socada num lugar entupido de gente, suar por todos os poros e ir embora toda suja e com o cabelo alvoroçado carregando o salto na mão? Ligar um som e dançar em casa, é uma possibilidade jamais cogitada.
Mas a verdade é que elas estão ali para atrair os machos e terem seu ego inflado quando passarem pelo grupo do babaca com a garrafa de Sprite e seus amigos, e verem eles chuparem os dentes tentando demonstrar excitação. Então eles chegam com suas deprimentes cantadas (que já citei acima) e pagam diversas bebidas a elas, que por sua vez, ficam se fazendo de difícil, para o cara pensar que se trata de uma garota de respeito. Quer se dar ao valor pensasse nisso antes de sair de casa, pois agora já é tarde, e até seres de completa carência intelectual, como a trupe dos imbecis, sabe que elas estão ali porque querem homem, estando tão necessitadas quanto eles.
Em seguida, as mulheres vão pra casa com o ego lá em cima, felizes, contentes por tantos olharem pra elas, e menos pobres por não pagarem tanto, prontas pra outro dia na sua vida. Já os idiotas, que se no caso, o papai tiver dinheiro, ele é então um "bacana", daí tudo bem, não irá fazer falta nenhuma, pois semana que vem ele receberá outra mesada. Agora se você é um sujeito que ganha um salário de R$ 465,00, e semanalmente comete essas atividades, sinto muito meu amigo, mas você é um imbecil. Por isso acho que uma balada pode ser considerada como um cassino: ambos são lugares onde você gasta todo seu dinheiro, e as chances de sair frustrado são grandes.
Este é o real e deprimente itinerário de uma balada, ainda que certos fatos eu nem citei, como os animais que começam a brigar lá dentro para mostrar que são os machos da floresta, ou então o raciocínio desses pseudo-sedutores, que chegam para uma mulher desconhecida que nunca viram na vida, e dizem coisas do tipo: "você é a mais gata da festa, quando eu te vi, percebi que precisava ficar com você".
Isso também mostra que a mulher em nossa cultura contemporânea deixou de ser a companheira, passando a ser objeto do homem. Neste caso ela mesma é a responsável pelo seu caos particular, pois se desvaloriza cada vez mais, freqüentando essas festas e concordando com a condição de objeto, aceitando as cantadas mais ridículas de um cara, que até elas sabem, tem como único desejo possuí-las por uma única noite e nada mais.

Portanto se você cedeu alguns preciosos minutos da sua vida lendo isso, pode estar pensando que eu sou um tipo de tradicionalista-moralista. Não, sou apenas um cara com algum resquício de senso crítico, indignado com essa geração que foi morta por uma overdose de estupidez, alguém que acha que a mulher deve ser tratada com respeito, e não como uma fruta (por mais que algumas prefiram e vivam assim) que você come e depois joga fora.
Mais até que chegue o dia em que essas ilusórias patricinhas percebam que perderam os caras legais para as mulheres inteligentes e maduras, elas não começarão a mudar. E até então, nossa sociedade intelectualmente medíocre continuará sendo o paradigma dominante de si mesma.

domingo, 6 de junho de 2010

Brasil, Um País Que Involui


Texto de Álvaro Samways

A algum tempo atrás estava eu calmamente zapeando os canais na TV a procura de algo que pudesse salvar minha noite quando me deparei com o incólume programa Superpop, comandado pela oportunista (e eternamente agradecida à camisinha furada do Mick Jagger) Luciana Gimenez. Todo e qualquer ser humano com mais de três neurônios ativos sabe que este programa é uma égide à ignorância, sempre recheado de atrações horrendas e convidados idem, constituindo um dos ícones mais representativos da burrificação a qual todo cidadão brasileiro é exposto diariamente. Normalmente eu passaria reto por esta atrocidade em forma de programa, mas acabei dando de cara com este quadro http://www.youtube.com/watch?v=LVYxsrYb7vI , que me fez parar e assistir por alguns momentos este programa. Peço que vocês também assistam este vídeo, para que possam compreender o que tentarei lhes passar nas linhas subseqüentes.
No tal vídeo podemos ver a crítica de Régis Tadeu, na minha opinião, uma espécie em extinção dentre os críticos musicais, pois ao contrário do resto dos de sua classe, ele sempre mostrou-se coerente, sério e como ele próprio diz no vídeo, sem laços de “corporativismo” com ninguém, cumprindo seu papel crítico com toda a veracidade. Como pudemos assistir, Régis Tadeu discorreu de forma embasada e sincera, dotado sempre de argumentos plausíveis para colocar sua opinião em voga, que é o que qualquer um que se diz inteligente já percebe por si só: o fato dessa tal Tati Quebrabarraco não passar de lixo em termos de conteúdo artístico, e que o que ela faz não tem absolutamente NADA a ver com Funk. Ela, em contraparte, elabora uma resposta sem nenhum embasamento, com um português que até mesmo um ornitorrinco bem treinado poderia reproduzir, colocando como mérito artístico o seu “DVD de ouro” (engraçado como este “argumento” do “número X de cópias vendidas” é sempre prevalente entre aqueles que nada têm a dizer de relevante, mostrando mais uma vez que quantidade não é sinônimo de qualidade), sem realmente ter como defesa algo que pudesse contradizer o seu acusador. Mas o pior deste vídeo está longe de ser isso. Quando e tal Quebrabarraco acaba de bufar sua ridícula resposta (se é que aquilo pode ser considerado de alguma forma uma resposta), o público que estava no programa a aplaude, como se ela tivesse vencido o debate usando de uma inteligência enxadrística, e logo depois gritam seu nome em coro. Ver este quadro só me fez atestar algo que, a cada dia, se mostra mais escancarado: que o Brasil é um país em involução.
Parece que com o passar do tempo, mais e mais pessoas têm seu cérebro lobotomizado, desligando qualquer célula reflexiva a respeito do que lhes é empurrado como algo bom e verdadeiro. Basta analisar este caso do tal funk carioca (em letra minúscula, por não se tratar do verdadeiro Funk). É sintomático o fato de que quando se fale em Funk em alguma roda de conversa com os amigos na lanchonete da esquina, o que venha à pauta seja essa profusão de desqualificados como MC Creu, Latino, Bonde do Tigrão, entre outras porcarias. Quando diabos contaram a piada de mau gosto dizendo que isso é Funk?
Funk sim, é uma música de altíssima qualidade, que começava a despontar em bares enfumaçados dos EUA no inicio dos anos 60. Mas foi um certo cavalheiro chamado James Brown, que no final daquela mesma década, ficou conhecido na grande mídia por fazer uma música que despojava o soul de suas caraterísticas mais melódicas e dava ênfase à parte rítmica, dando luz a um estilo altamente dançante, contagiando a qualquer um que tivesse dois ouvidos em perfeito funcionamento. Com seu talento indiscutível sendo reconhecido, ele tornou-se o embaixador e lenda viva do novo estilo de soul music chamado FUNK (nome de uma gíria que correspondia ao suor resultante da dança, por isso costumava-se dizer “this is a funk music”, algo como “esta é uma música que faz suar”), e com isso não demorou a influenciar gerações. Deste mestre pioneiro surgiram mais e mais grupos de talento áureo, como Tower Of Power, George Clinton com Funkadelic e Parliament, Sly e The Family Stone, Wild Cherry, Brecker Brothers, Larry Graham (inventor da técnica conhecida como “slap” no baixo elétrico, uma das marcas registradas do estilo Funk neste instrumento), e taaantos e taaantos outros. No Brasil o Funk verdadeiro teve e ainda tem representantes que igual quilate artístico, como o mestre Tim Maia, Ed Motta, Jorge Ben-Jor, Funk Como Le Gusta, Serial Funkers, e vários outros artistas injustiçados pela mídia de massa.
Este tal funk carioca, que de Funk reforço, não tem NADA, é uma variação do tal Miami Bass, estilo que nasceu nos EUA nos anos 80, junto ao início da música eletrônica, e que ficou famoso com grupos picaretas como o 2 Live Crew. Este “batidão” não passa de uma profusão de “músicas” tenebrosas, letras piores ainda, e “artistas” (um crime inafiançável chamar essa gente de artistas) que beiram o zero absoluto em termos de talento.
Ver um gênero destes triunfar na grande mídia de nosso país é algo semelhante a levar um carimbo de “burro” na testa. É a sensação de ser passado para trás, de ter sua honra desrespeitada e sua moral colocada em xeque, pois somente alguém que pense que seus espectadores são um bando de mortos-vivos com baba escorrendo pelo queixo pode concordar em veicular este tipo de atração em seu programa/emissora. Somente em um país atrasado social e intelectualmente, tal tipo de atitude dá lucros financeiros, tanto pra veículos de mídia como para os que se propõem a viver do ato de protagonizar tal barbárie supostamente musical. E quem sai perdendo são justamente os cidadãos, que em sua maioria são realmente passados pra trás, rotulados como idiotas, e dão de comer pra esta corja de aproveitadores e oportunistas.
O Brasil involui a cada dia, a passos largos, e a trilha sonora de fundo mais apropriada, é mesmo o funk carioca, pois forma um paralelo com a situação brasileira, visto guardar nele as mesmas características do que nosso país vive: algo caótico, confuso, louco (no pior sentido da palavra), bruto, artificial, patético, sem um pingo de seriedade, apenas nutrido por um amontoado de baixarias, seja pelos seus artistas/governantes, como por seu público/povo.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Apanhador no Campo de Centeio




















Texto por Jean de Oliveira

O Apanhador No Campo De Centeio, é a tão controversa obra de Jerome David Salinger, que tornou-se o mais acurado e sensível grito da crônica juvenil, e uma das mais marcantes obras da literatura norte-americana contemporânea, que transcendendo as décadas, vem hipnotizando cada vez mais um numero maior de fãs. Nele Salinger comanda a narrativa de maneira surpreendente e fria, mas ainda assim deixando algum resquício de inocência e ingenuidade infantil, sob a voz crítica e entediada de Holden Caulfield, tendo como cenário os dias da sociedade de Nova York da década de 50.
Este clássico da literatura norte-americana narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, um típico garoto americano vindo de uma família classe média alta de Nova York, incomodado com a mesmice, a ignorância e principalmente, a falsidade que o cercam. Holden, estudante de um refinado internato para rapazes, volta para casa mais cedo no inverno depois de ter reprovado em quase todas as matérias. Na volta para casa, narra os dias que sucederam a sua expulsão da escola Pencey enquanto sai vagando pelas ruas de Nova York refletindo sobre tudo o que (pouco) viveu, e agredindo, com bastante inteligência e sarcasmo, tudo o que detesta à sua volta. Repassando sua peculiar visão de mundo,ele tenta enxergar alguma diretriz para seu futuro. Antes de se defrontar com os pais, procura algumas pessoas importantes para si (um professor, uma antiga namorada, sua irmãzinha) e tenta lhes explicar a confusão que passa por sua cabeça, mas ninguém lhe compreende. Porem o que realmente o incomoda é o vazio e a falsidade das pessoas, que por mais promissoras que pareçam, sempre acabarão por se revelar como mais uma decepção.

Durante a leitura de O Apanhador, para poder compreender o porquê de este livro ser tão aclamado e discutido em todo mundo, deve-se levar em conta alguns detalhes cruciais.
A escrita em si é um pouco antiquada, e usa de muitas expressões coloquiais. Claro que se você é um jovem de 17 anos hoje e ler o Apanhador vai achar os diálogos ultrapassados, e talvez a estória não pareça ser tão interessante, mas tenha a consideração de lembrar que a idéia de Sallinger, em 1951, era mostrar como os jovens falavam uns com os outros, sem se importar se aquilo era adequado ou não, ele quis transmitir a naturalidade do mundo jovem que estava acontecendo na época.
Foi a primeira vez na literatura americana (ou mesmo na mundial) que este tema foi tratado à fundo e exposto de maneira absolutamente natural. Sallinger quis mostrar o paradigma de se ter idéias, mas ninguém lhe escutar por causa de sua (pouca) idade.
O Apanhador após ser publicado, acabou por se tornar uma verdadeira revolução literária, por mostrar os anseios e preocupações de um jovem na década de 50. Foi também um dos responsáveis por criar a cultura-jovem, pois até então o adolescente não tinha direito a uma voz e uma visão de mundo próprio, ele era apenas ignorado pelos mais velhos. Ao contrario dos dias de hoje, onde os jovens têm toda a liberdade para se expressarem e gostarem do que querem (mesmo que em minha opinião, para alguns, este privilegio devesse ser revogado).
Mas a obra jamais poderia ser vista como uma apologia à rebeldia adolescente, simplesmente porque Caulfield, o contestador de Salinger, em momento algum tenta confrontar as pessoas que ele tanto critica. Ele sabe que o problema é ele e a sua espiral de amargura e repulsa, convertendo a realidade que o cerca em uma espécie de cotidiano decadente e corrompido. Sabe que o mundo lhe incomoda tanto quanto ele "incomoda" o mundo, e por isso esta sempre sendo enxotado das escolas, mas nunca usa uma justificativa como "incompreensão do mundo exterior”.
Mas também não é só de elogios que vive o memorado Apanhador no Campo de Centeio. Como toda obra, ela tem seus prós e contras. Este livro não deixa de lado passagens de profundo desprezo com o personagem que, durante alguns trechos, mostra-se chato e monótono, só reclamando de tudo e de todos, transformando conversas banais em fenômenos nojentos, mudando a realidade à sua volta em um profundo poço de pessimismo e depressão.
Por isso Holden é ao mesmo tempo o herói e o vilão da estória, pois durante o decorrer dela, enquanto enfrenta dramas e tormentos pessoais, nunca oculta seus erros, muito pelo contrário, sempre deixa bem claro seus defeitos como por exemplo: ser divertidamente mentiroso, assumidamente covarde, entre outras coisas. E isto é relatado seguidamente durante o livro, para que o leitor seja introduzido da maneira mais próxima da realidade na vida desesperante deste rapaz de dezesseis anos.
A fama de O Apanhador é sobretudo devida à polêmica envolvendo Mark Chapman, o assassino de John Lennon, que quando capturado pela polícia, carregava este livro consigo. Quando questionado sobre o porquê de ele ter assassinado o ex-Beatle, Chapman respondeu "Leia O Apanhador no Campo de Centeio e você descobrirá porque o fiz. Esse livro é meu argumento". Outro fato curioso é que o atirador que tentou matar Ronald Reagan, em 30 de abril de 1981, afirmou a mesma coisa, ou seja, que teria tirado do livro a inspiração para matar o presidente Reagan. Por isso, O Apanhador acabou se tornando o livro mais vezes banido da Literatura. Porém, em contrapartida, também uma parte obrigatória do currículo acadêmico de muitos países de língua inglesa.

Algo que me deixa feliz, em tempos onde até Ana Maria Braga escreve livros, é que O Apanhador No Campo De Centeio, que agora completa 59 anos de publicação (ele foi publicado em 1951), continua sendo referencia a uma boa literatura própria e marcante, mesmo com toda a controvérsia que o envolve, é um livro indispensável na formação de alguém que possui algum átomo de senso crítico.
E se você não concorda comigo e acha o que eu escrevi a maior idiotice do mundo, e ainda pensa que ficou mais burro por ter lido tudo isso, releve, pois eu poderia estar matando, roubando ou escutando musicas do Latino (não sei o que seria um crime mais grave), mas não, eu estou aqui, apenas escrevendo o que penso.

Cds (Lançamentos) ALICE IN CHAINS




ALICE IN CHAINS

Black Gives Way To Blue
(EMI) 2009

Você se lembra do Alice In Chains? Sim, é aquela banda mesmo, que foi um dos pilares do movimento musical que, nos anos 90, ajudou a redefinir os caminhos do rock para algo realmente de artístico novamente (e não por acaso jogar fora toda a geração de bandas que ficaram conhecidas como “hard rock farofa”, que haviam infectado o globo na década anterior), numa explosão de rock alternativo advinda da cidade de Seattle, que ficou conhecida como grunge. O que? Você não os conhece? Pois então deveria, e a melhor hora para você que não viveu a efervescência dos anos 90 é agora, visto que a banda voltou às suas atividades neste ano, depois da perda de seu vocalista original, Layne Staley, por overdose de heroína em 2002. E para iniciar vida nova, um registro sonoro completamente inédito marca o triunfante retorno.

Black Gives Way To Blue é o primeiro álbum de estúdio do AIC em 14 anos (o último havia sido o bom eletro-acústico Jar Of Flies, de 1994). Sob a batuta do excelente guitarrista Jerry Cantrell, a banda traz de volta o som característico que a tornou famosa nos anos 90: pesado, arrastado e monocromático, sempre com arranjos primorosos, os riffs de guitarra de mais de uma tonelada de Cantrell, bateria musculosa de Sean Kinney e o baixo a serviço da música de Mike Inez, o que fica explícito já na abertura, com a ótima “All Secrets Know” e a perfeita “Check My Brain”.

Como novidade, pode-se ouvir os inspirados vocais do novo membro da banda, William DuVall, que conseguiu substituir Layne Staley com honras, registrando vocais que deixariam contente o falecido. Mesmo com vários momentos de semelhança com Staley, Duvall não deixa de imprimir uma boa dose de subjetividade em vários momentos pelo disco, como na cadenciada “Last Of My Kind”, “Take Her Out” e “Private Hell”. “Your Decision”, “When The Sun Rose Again” (que chega a incluir até mesmo tablas) e a faixa título, remetem ao já citado álbum Jar Of Flies pela sua pegada acústica, que surge como um ponto de luz em meio ao clima sombrio e mórbido que figura todo o disco. Em contraponto “A Looking In View” e “Acid Bubble” (tão arrastada e pesada que faria o pessoal do Black Sabbath ruborizar-se), trazem um peso neandertalesco, que combinadas á tristeza na letra de “Lesson Learned”, fazem com que as canções ganhem moldes épicos.

A qualidade geral de Black Gives Way To Blue é tão alta que demonstra com galhardia que a banda não é apenas um reconhecido ícone dos anos 90, mas é também digna de ser considerada pelas futuras gerações. Reconectando-se às raízes sonoras do seu passado, o Alice In Chains dá uma lição de que ainda é possível se fazer rock de verdade nos dias de hoje.


segunda-feira, 31 de maio de 2010

Velando a Arte.


Texto por Álvaro Samways.

Nestes últimos meses temos assistido a uma invasão de duplas sertanejas na mídia nacional brasileira de proporções tão gigantescas, que acabaram retomando um fenômeno que não era visto desde os saudosos anos 90. Naquela época, surgiam jovens cantores que tentavam dar uma roupagem mais pop radiofônica para a então musica sertaneja de duplas mais antigas de gente como os hoje octagenários Tonico (in memorian) e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho, Milionário e José Rico entre outros nomes. Estes supracitados tinham uma má fama na grande mídia, pois sua música era acusada de ser “coisa de bordel”, “coisa pra caipira”, “coisa pra caminhoneiro”, “coisa brega” entre outros estigmatizantes apelidos menos cotados. Os jovens rapazes goianos dos anos 90 propunham uma música sertaneja mais despojada dos temas caipiras dos pioneiros, calcando suas letras em temas românticos, onde a mulher amada sempre o deixava para ir ter com outro (muuuuuuuuuuuuuuuuhh!!!). Estes jovens rapazes goianos eram ninguém menos que os hoje cinqüentenários Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo e Luciano, Leandro (in memorian) e Leonardo, e também alguns nomes de menor expressão como Gian e Giovani, João Paulo e Daniel, etc.

De fato o sucesso radiofônico veio para eles, e a música sertaneja, que já não era tão sertaneja assim, invadiu os lares de qualquer brasileiro que morasse em algo que não fosse uma maloca na floresta amazônica. O sucesso foi tamanho que especiais musicais televisionados foram criados (quem não se lembra do especial A-M-I-G-O-S da Rede Globo?), produtos exclusivos destes artistas foram inventados (tem até filme que foi mega-sucesso de bilheteria sobre a trajetória de uma destas duplas que é filha de um tal Francisco), e mesmo os filhos de alguns deles se arriscaram ao sucesso com o patrocínio camarada de seus pais (a irmãzinha bonitinha e o irmãozinho sem talento algum). E quando Leandro morreu, no ano de 1998, a comoção nacional foi tanta que levou milhares de pessoas ao seu enterro (quando Tonico morreu em 1994, quase ninguém lembrou disso).

Estes hoje homens de meia idade, atualmente vivem os louros do sucesso daquela época, visto que não têm como competir com a “terceira geração” da música sertaneja, já batizada pelos meios de comunicação com o nome de “Sertanejo Universitário”. Estes últimos apostam numa “música” que vai além do que os garotos de Goiás faziam em sua época. O visual “chapéubotacalçaarroxadacomcintodefivela” foi substituído por roupas de grife (o que pode ainda incluir algum dos acessórios anteriormente citados), as letras ganharam outros temas, como festas universitárias e seus conteúdos, que vão de bebida e azaração, até amores hedonistas momentâneos (ficar e no outro dia nem saber quem é a pessoa é a regra básica), além de poemas vazios sobre sofrimento amoroso onde uma camada extra de melaço foi derramada, transformando a antiga “dor de corno” dos goianos ex-plantadores de tomate, em uma verdadeira “tortura de corno”. Também entram temas machistas em voga como dinheiro, mulheres, carros, e outras coisas em duplo sentido, só “pra macho”.

Adentrei-me neste túnel do tempo somente para nestas mal traçadas linhas, situar-lhe no contexto que nos fez chegar ao que a antiga música caipira virou hoje. De como a música que falava dos temas pertinentes à vida do homem do campo despojou-se de qualquer resquício de verossimilidade, tornando-se apenas uma máquina cega de ganhar dinheiro. Quero deixar algo bem claro: eu não gosto de música caipira, aliás, muuuuito pelo contrário. Mas se o que caras como Pedro Bento e Zé da Estrada, Sérgio Reis, Tonico e Tinoco e tantos outros fizeram em seu tempo não são dignos de minha adimiração, o são então de meu respeito e reconhecimento, pois apesar de ser chata àbeça, a antiga música sertaneja é ainda assim uma forma artística verdadeira e fiel de expressão daquilo que eles viviam, fosse em seus sítios, fazendas ou roças. Como sabemos música na teoria é: “uma forma de arte que constitui-se basicamente em combinar sons e silêncio seguindo ou não uma pré-organização ao longo do tempo, para com eles expressar os afetos da alma” (Dicionário Aurélio XXI). Já os nossos A-M-I-G-O-S na sua época deceparam grande parte da arte contida na música sertaneja, misturando-a com outras coisas que nada tinham a ver com o contexto do homem do sertão. Agora analise então o que esta geração do “Sertanejo de Balada” está fazendo em nome da bandeira musical que escolheram levantar.

Para começar o nome deste tipo de música já é risível. Como algo poder ser “Sertanejo Universitário”??? Quantos sertanejos, daqueles que vivem no sertão semi-árido da Paraíba, por exemplo, você viu chegarem à graduação em alguma Faculdade ??? Quão pouco alguns deles são alfabetizados, menos ainda saberem o que é uma “balada universitária com mulher free e open bar”. Outra questão é que muitos dos tais cantores e duplas sertanejas dessa nova moda sequer têm suas raízes no campo (o principal expoente do novo sertanejo é a cidade de Campo Grande no Mato Grosso, coincidentemente uma das 15 maiores regiões urbanas do Brasil...). Evidenciam-se ainda, letras que nada tem a ver com o que um homem do campo genuíno escreveria levando-se em conta sua vida cotidiana.

Alguns podem alegar que esta é a evolução daquilo que se chamava música sertaneja no passado. Mas eu indago a vocês meus caros seres pensantes: como uma coisa pode evoluir cortando totalmente os laços com aquilo que era no passado? Pelo menos na história da música nota-se que isso é algo impossível de se consumar, pois todos os estilos que evoluíram de outros (e na real TODOS evoluíram de algum outro) ainda guardam muito mais que o nome do seu predecessor. Um exemplo foi o New Metal (ou Nu Metal como preferir) que surgiu no fim dos anos 90. Apesar de bandas como Korn, Slipknot, System Of a Down e outras deste estilo estarem á anos luz de distância, em termos de sonoridade, das bandas de metal e trash clássicas como Black Sabbath, Iron Maiden, Helloween, Slayer, Anthrax entres outras, elas ainda guardam muitas características identificáveis do berço de onde vieram. Neste “New Sertanejo” das baladas de quinta, todo o contexto musical daquilo que era o estilo clássico de se fazer este tipo de música foi abandonado. Pormenorizando: a arte (que é o fator X) neste estilo musical, morreu.

O que se vê tocando em alto e em (nada) bom som nos carros tunados, é uma música totalmente voltada a fins comerciais, sem a menor sombra de talento e principalmente, de ímpeto artístico. Um lixo de qualidade nula, feito pra durar algumas temporadas na TV e no Rádio, fazer fortuna para um bando de picaretas exploradores, e logo ser esquecido, assim como os “artistas”(favor ler essa palavra com o máximo de sarcasmo possível) que a protagonizavam.

E esta não é uma regra válida só para o tal “Sertanejo Univer$itário”. A classe que mais povoa nossos meios de comunicação, é a de pessoas oportunistas, sem um átomo de talento e ímpeto artístico, buscando fortuna fácil a promoção rápida à classe de celebridade. E isso vai desde o barulho (recuso-me a chamar isso de música) feito por gente desclassificada como Parangolé, Tati Quebrabarraco, Sorriso Maroto, Lady Gaga, Justin Bieber, RBD, NX Zero, Malu Magalhães, Cine e outras porcarias, até às patetices protagonizadas pelas moças e rapazes sarados do BBB. Não só na música, mas em todas as áreas, temos “talentos” de plástico, indefiníveis exatamente por não existirem. Vide “modelos-atrizes” que só sabem atuar com a bunda, escritores bestsellerizáveis que usam de alquimistas e bruxos pra entreter com ignorância, filmes totalmente ridículos que lotam suas sessões com platéias de adolescentes (mesmo adultos) não muito bem resolvidos, em busca de verem-se refletidos no amor impossível “vampiro X garotinha bonita”, quadros de entrevista onde entrevistador e entrevistado não possuem realmente nada de interessante a declarar, entre taaaantas e taaaaantas porcarias descartáveis que são glutidas dia após dia por uma massa de zumbis que parecem ter vácuo entre uma orelha e outra.

O que realmente se presencia como produto de toda esta equação que envolve a sociedade é a morte trágica e agonizante da Arte. Aquilo que deveria ser o objetivo, torna-se algo descartável, apenas um apêndice totalmente esquecido em prol do todo poderoso dinheiro. É meu amigo, a Arte está num caixão. Resta a nós seres críticos, cultuá-la postumamente com as músicas/ filmes/ livros hoje esquecidas pela máquina do lucro, lembrando que um dia ela, a Arte, realmente foi o centro das atenções tanto dos artistas como de seus apreciadores.